sábado, 19 de junho de 2010



"A alegoria chega quando descrever a realidade já não nos serve. Os escritores e artistas trabalham nas trevas e, como cegos, tacteiam na escuridão."

Pequeno e minúsculo tributo ao autor do melhor livro de sempre " O ano da morte de Ricardo Reis." Para fanáticos de Fernando Pessoa e não só.
Obrigado por tudo o que deixaste escrito e por teres colocado no mapa a região onde habito por causa das declarações sobre a bíblia.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Emoldura o apocalipse com visões nucleares de ilusões desnecessárias de estranhas indumentárias assentes em descrentes.
Captura frame por frame o esvaziar do acreditar.
Nessa imagem que exporás ao mundo desfeito e sem olhares para a verem, verás tu o cenário mais que perfeito.
A poesia contem em si narrações de subliminares deserções.... E no regresso da noite, tão forte e afoite, tudo estará despido da tão almejada sorte.
A Morte leva tudo a consorte, no gentil sublimar do seu corte.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Não sou mais que uma efeméride
Passageiro em toda a gente
Não sou uma simples efélide
Ora num corpo ora numa mente.

Não sou eterno
Não sou desassossego
Sou algo que alterno
Entre a indiferença e o apego

Não duro mais que um pensamento
Sou um mero instante.
Nada mais do que um desalento
Que desaparece de rompante.

Sou vaga recordação
Daquelas mais difusas
Apenas aquele não
No sorriso que não usas.

Sou tão breve
Menor do que um não-desejo
Sou quem não deve
Sou mero bocejo.

Sou breve memória
Data esquecida
Da qual não reza a história
Uma palavra perdida.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Com um dia de atraso, mas a quem é grande o relógio e o calendário não comandam. Parabéns mestre, onde estiveres.


Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.
"Errar é humano."
Eu contraponho, errar é desumano. Quando os erros abrem feridas que nunca cicatrizam. Não erros pessoais, mas de outros seres. Abrem-se as portas da desumanidade nessas palavras cheias de erros não gramaticais nem estruturais de frases. Parece que quando se erra, nunca se erra nas palavras e o vocabulário fica surpreendentemente mais vasto do que os oceanos. Elas são punhais voadores com tecnologia militar alienígena, com uma precisão suprema. não existe sequer espaço para margem de erro. Elas voam e acertam onde devem mesmo acertar.
Há a virtude de assumir os erros, mas isso é também uma capacidade que não habita nos humanos.
Eu tenho essa virtude... e odeio-a! Meramente porque odeio errar. Nunca cometi erros iguais aos que enunciei umas linhas acima. O mais simples dos erros. seja no trabalho seja onde for, aqueles erros inofensivos, despoletam em mim uma vontade imensa de me flagelar. Castigar-me por esse resquício de humanidade, ou o que chamam de atributo unicamente disponível nos humanos.
Não pactuo com existências pré-concebidas e pré-destinadas. Não pactuo com ninguém muito menos comigo.
Errar é para os fracos. Errar e assumir o erro, não o invalida. Não o faz desaparecer por entre o nevoeiro e tudo voltar a ser exactamente como era antes dele ser infligido.
Os erros magoam e muito. Nalguns casos, removem grande parte das essências das vitimas.
Eu fui constantemente trucidado por comboios desgovernados de erros. Sou uma ferida apenas, tão grande que ela é. Não fiquei amputado de membros vitais. Alguns deram-me mesmo asas. Consigo voar sobre os infractores e cuspir-lhes em cima. Não uma cuspidela de ódio nem sequer de desprezo, uma cuspidela de escárnio somente.

E estava escrito em tábuas de mandamentos irreligiosos, que um dia virias ajoelhar-te perante mim e pedir clemência. Esses olhos que estavam tão frios quando me trucidaste vem agora com toda a beleza que apenas eu via e olham para mim. E fazes-me sentir humano novamente....