domingo, 12 de junho de 2011

Será o efeito Axe a funcionar finalmente?

Não sou uma pessoa influenciável. Principalmente no que diz respeito a publicidade televisiva, mas tenho que confessar que fiquei escravo dos produtos Axe precisamente por causa da sua publicidade. A partir do momento em que vi o anuncio do mosquito que morde o azeiteiro rodeado de mulheres no bar e que termina com o sabujo a beber a garrafa de tequilla e respectivo "brinde" enquanto mulheres esfomeadas se levantam, jurei fidelidade a esta marca que é das mais caras por sinal no que diz respeito a produtos de higiene masculina.
Isto tudo para escrever que face aos últimos assédios a que tenho vindo a ser sujeito só poderão ser resultado do Axe já que penso que não me tornei uma espécie de deus grego assim de repente.
"Este gajo deve ser mesmo convencido"- pensarão muitos de vós que leêm as minhas palavras. Mas isso não está mais longe da verdade. Por isso é que deixo aqui estas pequenas crónicas por plena perplexidade em relação ao facto de alguém me procurar para o acto animalesco de acasalamento.

Ok, vamos ao que interessa: Mais uma noite de copos e aí anda o vosso anfitrião perdido em bares no Porto já bem bebido, só para variar um bocadinho.
UM JOVEM mete conversa comigo e eu dou-lha mesmo na boa. A conversa começa a entrar num caminho um pouco obscuro demais para mim.
Meus deuses inexistentes, porque me esculpiste tão ingénuo!!!!!!!!! Penso sempre que as pessoas não tem malícia ou maldade nas suas acções, mas ás vezes é preciso que me façam um desenho assim daqueles muito simples para eu perceber o que se passa à minha volta.
É preciso falarem-me à bruta para eu perceber. Diz assim para mim O jovem:
-"Vamos até à casa de banho que eu faço-te um broche como nunca ninguém te fez."
Se eu estivesse sóbrio teria fugido a 7 pés, mas como estou com os copos a minha reacção é a mais calma do mundo:-
"Fico lisonjeado com a tua oferta, mas se fosses o Gael Garcia Bernal ou o Christian Bale até te deixava que me pagasses um copo, mas também não levarias mais nada além disso."

João Tordo e "As 3 vidas" ou o mero constatar que somos um país de grandes escritores.

Quando um livro nas primeiras páginas me esfaqueia brutalmente com isto:
-"...ao contrário da crença habitual, não me parece que os sonhos sejam o espelho dos nossos desejos; cá para mim, acho que os sonhos são o espelho dos nossos horrores, dos nossos piores medos, da vida que poderíamos ter tido se, numa altura ou noutra, não fossemos incomensuravelmente cobardes." Faz prever que me vou apaixonar completamente.
Quando, algumas dezenas de páginas depois, tem esta análise ao livro "1984";
"Com que ideia ficaste?"
"tem um título curioso, 1984 é daqui a poucos anos..."
"Será sempre daqui a poucos anos..."
"Se existe salvação, ela está no proletariado..."
"E o que achas tu disso?"
"Faz lembrar a Bìblia. Que aos pobres de espírito chegará a salvação"
"A comparação teológica é pertinente; afinal. Cristo foi o primeiro lider do proletariado..."
"A obra é uma metáfora... o romance parece ser uma apologia do socialismo, noutras, parece que nos está a revelar a inutilidade do mesmo.... O verdadeiro perigo está na classe média, no pensamento livre. O que gera o pensamento livre? A dúvida. E o que gera a dúvida? O pensamento livre. Duvido de que duvido..." fico completamente rendido.
É o primeiro livro que leio deste "novo" autor português e entra directamente para o top 10 dos melhores livros que alguma vez li.
A escrita de Tordo é corrida, muita descrição usada correctamente sem cair no exagero. Sendo ficção, aborda a complexidade da humanidade de uma maneira muito próxima ao que Sartre fez nos seus romances.
É daqueles livros que não queria que acabasse e que acaba por saber a pouco por isso mesmo.
A literatura, como todas as formas de arte, é subjectiva. A estória de um homem lutando contra os seus fantasmas e tentando conquistar o controlo do seu cérebro e emoções é algo que me fascina porque tenho essa luta diáriamente e, neste livro, as lutas sangrentas que não deixam qualquer marca física entre uma pessoa e a fronteira tão ténue, que por vezes se diluí, entre a sanidade e o o seu antónimo eclode de uma maneira tão violenta que me arrebatou totalmente.
Este romance, vencedor do prémio Saramago em 2009, foi amplamente elogiado pelo próprio assim como Gonçalo M Tavares já o tinha sido. Se fosse possível, pediria uma ovação em pé para esta obra. Está na hora de procurar os restantes dois romances de Tordo e rezar aos deuses literários para que este não seja outro "Cemitério de Pianos", isto é; a única coisa realmente boa escrita por este jovem autor.
O já citado Gonçalo Tavares está um pouco só no trono do melhor escritor português da actualidade para mim. Está a precisar de companhia. Só é preciso para lá chegar manter a qualidade que o próprio mantém em todos os seus romances. O problema com Tordo é que as expectativas com este livro ficaram estupidamente altas. Mas aquele cheirinho a Sartre é um condimento que me faz babar completamente. Romancear Filosofia só está ao alcance de muito poucos e este livro acaba por estar muito próximo no ranking d´"A nausea".
Podem-me chamar de sonhador, o que também não é mentira nenhuma, ou de utópico, idem aspas aspas, mas a nova geração de escritores portugueses faz-me acreditar que o nóbel de Saramago não será um mero caso isolado. Vários estarão a caminho....
Só espero que os próximos galardoados não tenham a indecência de falecer quando o Presidente da Republica estiver de férias...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Filme do desassossego eterno.

Após vários meses e tentativas frustradas de ver a adaptação cinematográfica do fantástico "Livro do desassossego" de Pessoa porque "o filme não poderia ser exibido em salas de cinema convencionais nos centros comerciais junto ás pipocas e coca colas porque Pessoa merece todo um culto à volta da sua obra." (João Botelho, realizador do filme) dificultando imenso a vida ás pessoas que ainda tentam fazer alguma coisa pela cultura nacional, somos confrontados com a sua edição em Dvd que podemos adquirir junto com o jornal Correio da Manhã que é, sem dúvida alguma, o ícone português da cultura.
João Botelho e Produtora Ar de filmes: Porque dificultaram tanto o acesso à visualização do filme? Estavam com medo de críticas de quem leu o livro?
Não querendo estereotipar, mas o público alvo do Correio da Manhã não me parece que sequer tenha ouvido falar d`"O livro do desassossego" quanto mais do seu filme. E talvez o nome Fernando Pessoa diga qualquer coisa já que Bernardo Soares talvez seja confundido com o nome de um político qualquer.
Já que Pessoa é tão underground e tão selecto, roça o insultuoso as suas palavras co-habitarem com as das "notícias" do dito "Jornal".

Pessoa saiu da sua sepultura e dedicou-vos isto:

"Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconseqüência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!"

terça-feira, 7 de junho de 2011

"Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida."

Bernardo Soares, in "O livro do desassossego."
Com uma mão deixo-te ir mas com a outra puxo-te para mim.
Uma mão quer que tu sejas livre mas a outra quer que seja eu livre. A mesma mão que te sufocou tentando agarrar-se à sanidade. Esta mão é egoísta. Esta mão agarrou-se a ti com toda a força para não cair no labirinto da insanidade. Quase te arrastou com ela.
A mão esqueceu-se que a sanidade rapidamente se transforma no seu antónimo.

Consigo vir à tona por breves segundos neste mar de tormentas que é o meu cérebro. Aproveito para encher de ar os meus pulmões para uma emersão que estará para bem breve. Não vejo agora a tua mão. Estarás talvez a apanhar sonhos que flutuam no ar ao teu redor. Vejo apenas a noite estrelada e não consigo ver o teu brilho. Estarás certamente a brilhar noutro céu.

Volto a afundar-me nas águas turvas tentando ganhar força para delas sair. Mas eu não sei nadar. As minhas mãos tentam escalar paredes escorregadias de pensamentos. Já não há uma mão lá fora para me puxar para a superfície. Usei-a em demasia e ela fartou-se. Não a censuro. Não culpes a minha mão por ser tão egoísta. Foi uma mero reflexo de sobrevivência.
Agora é o tempo de aprender a nadar sozinho. Se chegar à margem prometo que não procurarei de novo a tua mão. Mas que falta que ela me faz...

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Outra coisa mais fodida que as segundas feiras

Nascemos todos com vontade de amar. Ser amado é secundário. Prejudica o amor que muitas vezes o antecede. Um amor não pode pertencer a duas pessoas, por muito que o queiramos. Cada um tem o amor que tem, fora dele. É esse afastamento que nos magoa, que nos põe doidos, sempre à procura do eco que não vem. Os que vêm são bem-vindos, às vezes, mas não são os que queremos. Quando somos honestos, ou estamos apaixonados, é apenas um que se pretende.
Tenho a certeza que não se pode ter o que se ama. Ser amado não corresponde jamais ao amor que temos, porque não nos pertence. Por isso escrevemos romances - porque ninguém acredita neles, excepto quem os escreve.
Viver é outra coisa. Amar e ser amado distrai-nos irremediavelmente. O amor apouca-se e perde-se quando se dá aos dias e às pessoas. Traduz-se e deixa ser o que é. Só na solidão permanece...

Miguel Esteves Cardoso "O amor é fodido!"

Coisas bizarras que só me acontecem à segunda-feira.

Eu sou daquelas pessoas irritantes que ouve música a altos berros no carro. Calma, mas é só de manhã quando vou para o trabalho. Apenas para não adormecer...
Ás segundas feiras os álbuns de metal tem rotação obrigatória. Preciso de muito barulho para o meu cérebro acordar e espreguiçar-se à vontade para começar a funcionar lá por volta das 9 da manhã. A vantagem de se entrar ás 8 da manhã é que durante uma hora não está mais ninguém no local de trabalho e posso andar a vegetar enquanto o meu cérebro processa a informação de que é preciso trabalhar.
Hoje a escolha matinal recaiu em Paradise Lost para a viagem. Como é para breve o concerto fui exercitando o meu pescoço para tirar a ferrugem e estar pronto para o headbanging que se aproxima. Entusiasmei-me em demasia com tal actividade o que resultou em não ver uma curva e seguir em frente em direcção a um portão aberto. Nada mais nada menos que o portão traseiro do estádio 25 de Abril do F.C. Penafiel. Entro pelo estádio dentro tentando controlar o carro. Consigo fazê-lo já a poucos metros do relvado perante o olhar de pasmo das pessoas que estavam nas obras dentro do estádio. Começo-me a rir desalmadamente. Sim, eu gosto tanto de gozar comigo próprio. Saio do carro para ver se estraguei alguma coisa enquanto duas pessoas se dirigem para mim.
"Oh amigo, o futebol já acabou. Se quiser jogar no Penafiel tem que esperar por julho!"
Ao que eu replico:" Sempre quis fazer uma invasão a este campo, mas não era desta maneira. Desculpem lá o susto. Sabem como é: as segundas feiras são fodidas."
E pronto lá saí eu do estádio sem glória e a tremer de susto. Ainda passei as mãos pelas calças a ver se tinha vertido algum liquido que não era suposto, mas estava tudo sequinho.